
Eu
escolho vencer! Ser alguém nessa vida! Por isso vou me matricular numa escola
pública mesmo, porque quem faz a escola é o aluno!
Quem
disse isso foi Wallace Klayton, aos sete anos de idade, numa manhã de sábado,
quando sua mãe entrava no barraco onde viviam, chegando do baile toda suja,
bêbada, drogada, seminua e agressiva.
Mentira!
Wallace Klayton jamais diria isso! Primeiro, porque nas condições em que ele vivia e com essa idade, nunca poderia chegar a essa conclusão. Segundo porque Wallace Klayton não existe!
Por
muito tempo eu pensei que todo bandido tivesse escolhido viver da bandidagem.
Ouvir dizer que alguns eram vítimas da sociedade ou vitimas do sistema me
revoltavam. Pior ainda quando ouvia que a pobreza os obrigava a praticar os
delitos, pois eu também fui muito pobre e nunca optei pelo “caminho errado”.
Mas
bastou passar algum tempo entre becos e vielas das Comunidades da Ilha do
Governador que minhas teses foram caindo por terra. A primeira delas foi
descobrir que as privações pelas quais eu passei, nunca foram pobreza. Nunca
passei um dia inteiro sem alimento. Jamais moramos em casas sem o mínimo de
saneamento básico. Não conheci um tempo em que não houvesse sabonete e pasta de
dente. Enfim... eu não sabia o que era pobreza!
O
aluno faz a escola sim! Mas quem levaria Wallace Klayton para fazer a
matrícula? Talvez o pai. Sim, a mãe pode estar entregue à vida, aos vícios...
Mas e o pai dessa criança? Foi outra tese que caiu! Pai nas comunidades é
artigo de luxo! Avô, então... Nem se fala! A maioria das crianças não convive
com os pais que abandonam as mães ainda grávidas, abortando a responsabilidade
com os filhos. Outros, quando não estão presos, perdem a vida cedo devido ao
envolvimento com a marginalidade. As avós muitas vezes são novas, tem filhos
com a idade dos netos, trabalham pra sustentar a casa e não tem condições de
assumir mais uma responsabilidade. Como Wallace Klayton pode chegar à escola?
Mas
o pai e a mãe ou os avós não são as únicas referencias de Wallace Klayton! Ele
tem mais uma opção: aquele “cara” que passa de moto, com tênis que custa quase
um salário mínimo, coberto de ouro, uma loura com o cabelo lisinho até a
cintura sentada na garupa. A favela toda o reverencia. Ele é demais! Ele ajuda
os velhinhos e desempregados com gás de cozinha e remédios. Ele entrega
brinquedos no Natal, faz festa no dia das crianças. Como a escola poderia ser interessante
se Wallace Klayton nem a conhece? Então ele percebe que sua vida só pode mudar
se ele pedir ajuda ao “cara da moto”, assim, quem sabe, ele poderia ter condições
de cuidar da mãe.
Wallace
Klayton é uma vítima da sociedade e do sistema. Uma sociedade que julga o
mérito dos desiguais. Uma sociedade preconceituosa que olha um estereótipo e
rotula segundo sua opinião, segundo seu gosto, segundo seu “achismo”. Um
sistema que só funciona a favor dos que tiram vantagem dele. Um sistema que não
tem interesse pelos marginalizados. Um sistema que prefere uma população
ignorante quanto aos seus direitos, mas que cobra sem dó os seus deveres. Um
sistema que prefere manter Wallace Klayton e sua família com alguns trocados lá
no barraco do que oferecer trabalho e renda, educação, saúde, qualificação.
Nem
toda vítima da sociedade e do sistema é um mau caráter, assim como famílias
estruturadas não são fábricas de “bons moços”. Conhecer pessoas nos faz saber
que são muitos os fatores que formam um caráter e que nós podemos ser agentes
transformadores quando oferecemos as opções que eles não tem para poder fazer
suas escolhas entre o que é bom para uma vida de dignidade e o que é ruim para
sua destruição.
Eu
quero dar boas opções para muitos Wallaces Klaytons!
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