quinta-feira, 9 de março de 2017

Wallace Klayton



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Eu escolho vencer! Ser alguém nessa vida! Por isso vou me matricular numa escola pública mesmo, porque quem faz a escola é o aluno!

Quem disse isso foi Wallace Klayton, aos sete anos de idade, numa manhã de sábado, quando sua mãe entrava no barraco onde viviam, chegando do baile toda suja, bêbada, drogada, seminua e agressiva.

Mentira! Wallace Klayton jamais diria isso! Primeiro, porque nas condições em que ele vivia e com essa idade, nunca poderia chegar a essa conclusão.  Segundo porque Wallace Klayton não existe!

Por muito tempo eu pensei que todo bandido tivesse escolhido viver da bandidagem. Ouvir dizer que alguns eram vítimas da sociedade ou vitimas do sistema me revoltavam. Pior ainda quando ouvia que a pobreza os obrigava a praticar os delitos, pois eu também fui muito pobre e nunca optei pelo “caminho errado”.

Mas bastou passar algum tempo entre becos e vielas das Comunidades da Ilha do Governador que minhas teses foram caindo por terra. A primeira delas foi descobrir que as privações pelas quais eu passei, nunca foram pobreza. Nunca passei um dia inteiro sem alimento. Jamais moramos em casas sem o mínimo de saneamento básico. Não conheci um tempo em que não houvesse sabonete e pasta de dente. Enfim... eu não sabia o que era pobreza!

O aluno faz a escola sim! Mas quem levaria Wallace Klayton para fazer a matrícula? Talvez o pai. Sim, a mãe pode estar entregue à vida, aos vícios... Mas e o pai dessa criança? Foi outra tese que caiu! Pai nas comunidades é artigo de luxo! Avô, então... Nem se fala! A maioria das crianças não convive com os pais que abandonam as mães ainda grávidas, abortando a responsabilidade com os filhos. Outros, quando não estão presos, perdem a vida cedo devido ao envolvimento com a marginalidade. As avós muitas vezes são novas, tem filhos com a idade dos netos, trabalham pra sustentar a casa e não tem condições de assumir mais uma responsabilidade. Como Wallace Klayton pode chegar à escola?

Mas o pai e a mãe ou os avós não são as únicas referencias de Wallace Klayton! Ele tem mais uma opção: aquele “cara” que passa de moto, com tênis que custa quase um salário mínimo, coberto de ouro, uma loura com o cabelo lisinho até a cintura sentada na garupa. A favela toda o reverencia. Ele é demais! Ele ajuda os velhinhos e desempregados com gás de cozinha e remédios. Ele entrega brinquedos no Natal, faz festa no dia das crianças. Como a escola poderia ser interessante se Wallace Klayton nem a conhece? Então ele percebe que sua vida só pode mudar se ele pedir ajuda ao “cara da moto”, assim, quem sabe, ele poderia ter condições de cuidar da mãe.

Wallace Klayton é uma vítima da sociedade e do sistema. Uma sociedade que julga o mérito dos desiguais. Uma sociedade preconceituosa que olha um estereótipo e rotula segundo sua opinião, segundo seu gosto, segundo seu “achismo”. Um sistema que só funciona a favor dos que tiram vantagem dele. Um sistema que não tem interesse pelos marginalizados. Um sistema que prefere uma população ignorante quanto aos seus direitos, mas que cobra sem dó os seus deveres. Um sistema que prefere manter Wallace Klayton e sua família com alguns trocados lá no barraco do que oferecer trabalho e renda, educação, saúde, qualificação.

Nem toda vítima da sociedade e do sistema é um mau caráter, assim como famílias estruturadas não são fábricas de “bons moços”. Conhecer pessoas nos faz saber que são muitos os fatores que formam um caráter e que nós podemos ser agentes transformadores quando oferecemos as opções que eles não tem para poder fazer suas escolhas entre o que é bom para uma vida de dignidade e o que é ruim para sua destruição.

Eu quero dar boas opções para muitos Wallaces Klaytons!


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