segunda-feira, 20 de março de 2017

Café na Varanda

Hoje eu resolvi tomar o café da manhã na varanda, apreciando a bela paisagem da Baía de Guanabara em cinquenta tons de cinza. Céu encoberto, nuvens carregadas, garças disputando peixes, tudo lindo!

Então me pequei pensando como seria se um dia eu tiver que me mudar deste lugar. Será que me acostumaria a morar longe disso? Onde seria minha próxima morada? Mas imediatamente "aquela" doce e suave voz me responde:  "Não importa! você não curte aqui, não vai curtir em nenhum outro lugar! Engoli seco e tentei puxar pela memória as vezes em que eu tomei café da manhã na varanda... As vezes em que eu parei só para observar a exuberância da natureza tão judiada pelo Homem, mas ainda assim é a expressa grandeza imensurável do Criador!

São tantas as oportunidades que temos de contemplar cenas que alegram nossa alma... que nos fazem esquecer da corrupção, da covardia, da apatia... mas parece que nossa mente está escravizada pelo difícil cotidiano.

Temos que nos permitir... aprender a organizar nosso tempo e incluir na nossa rotina coisas simples que são combustível para um dia melhor, esteja ele começando ou terminando! Se não for café na varanda, que seja sentado na janelinha do ônibus, olhando as estrelas, observando o canto dos pássaros... Ah... tem tanta coisa para apreciarmos... desliga a TV, o celular, abre a porta, sai na rua e veja a VIDA! Aprecie a VIDA! Curta a VIDA! VIDA é a melhor coisa da vida! Eu amo a VIDA!

quinta-feira, 16 de março de 2017

Pontes e Muros



Ah... Todo mundo já conhece esse tema: "Não construa muros, construa pontes"! Mas o quanto aplicamos o que sabemos no nosso dia a dia? Difícil saber se não pararmos para fazer as contas.

Na construção civil, os materiais utilizados para a construção de muros e pontes são basicamente os mesmo: areia, cimento, pedra e ferro. O que vai dar o resultado final  e determinar o que cada um será é o modo de aplicação desses materiais. Mas e na nossa vida? O que é necessário para construir muros e pontes?

Durante minha caminhada, por conta do meu ofício, vou vivendo e conhecendo pessoas. Todo o tipo de pessoa! E naturalmente eu me relaciono melhor com aquelas com quem me identifico melhor.

O tempo passa... circunstâncias aparecem... intimidade cresce... e de repente você acha que tem alguns direitos sobre as pessoas. Fala coisas, faz coisas, cria coisas... e a coisa fica feia... Você é contestada, confrontada, questionada, mas não quer perder a razão! A outra parte, por sua vez, encontra-se no direito de manter-se numa determinada posição para que não seja vista como vítima ou vilã. Quer apenas ter razão. E na briga pela razão cada um pega a sua, viram-se costas e ali esta construído um muro.

Mas como eternizou Cazuza na canção, "o tempo não pára"! Aquelas pessoas tinham em comum, além do muro, uma história. Uma história marcada por momentos, sentimentos, emoções, coisas boas que somadas, são muito mais que o momento da construção do muro. Então a mente e o coração se enchem de "e se" - "e se eu tivesse falado diferente?", "e se eu não tivesse falado?", "e se ele tivesse ouvido num outro momento?". As respostas imaginárias também surgem e a gente começa a sonhar com o fim da "guerra fria" e a queda do muro. Mas... e para derrubar esse muro? O que fazer? Por onde começar? Que ferramentas usar?

É nesse momento que percebemos que nós, pessoas (falhas, inclusive), não temos coração de pedra, areia, cimento e ferro. O muro construído entre relacionamentos não pode ser derrubado com trator, guindaste, bolas de aço! A única ferramenta capaz de derrubar esse muro chama-se PERDÃO. Perdoar é realmente divino! O perdão revitaliza a área antes afetada pelos escombros,traz alegria, esperança e pode dar lugar a pontes que nos levem a lugares mais altos, mais distantes para que nossa história retome do momento anterior à construção do muro e avance por um novo caminho.

Muros são construídos a partir de relacionamentos. Pontes também. E assim, como na construção civil, as pontes exigem muito mais material. Mas o prazer de sonhar em chegar do outro lado em segurança, vale o sacrifício.

E não poderia deixar Beto Guedes que nos ensina há gerações: "a canção sabemos de cor, só nos resta aprender".

quarta-feira, 15 de março de 2017

Meu corpo, minhas regras!


Ana estabeleceu uma regra para seu corpo: NÃO GERE VIDA!
Maria por sua vez também estabeleceu a sua: GERE VIDA!
O tempo passou e o corpo de Ana burlou a regra e gerou uma vida. Ana ficou furiosa e decidiu punir seu corpo pela desobediência e eliminou a vida que fora gerada.
O tempo também passou para Maria e seu corpo, assim como o de Ana, descumpriu a regra e não gerou nenhuma vida.
Mas ao contrário de Ana, Maria nada pôde fazer. Não haveria punição que o fizesse obedecer. Só restaria perdoa-lo e ama-lo.
O amor e o perdão despertaram o Coração de Maria que se dispôs a gerar vida em uma vida que estava sem vida. E então Maria entendeu que não é um corpo que gera vida e sim o amor à vida!
Viva a vida!

quinta-feira, 9 de março de 2017

Wallace Klayton



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Eu escolho vencer! Ser alguém nessa vida! Por isso vou me matricular numa escola pública mesmo, porque quem faz a escola é o aluno!

Quem disse isso foi Wallace Klayton, aos sete anos de idade, numa manhã de sábado, quando sua mãe entrava no barraco onde viviam, chegando do baile toda suja, bêbada, drogada, seminua e agressiva.

Mentira! Wallace Klayton jamais diria isso! Primeiro, porque nas condições em que ele vivia e com essa idade, nunca poderia chegar a essa conclusão.  Segundo porque Wallace Klayton não existe!

Por muito tempo eu pensei que todo bandido tivesse escolhido viver da bandidagem. Ouvir dizer que alguns eram vítimas da sociedade ou vitimas do sistema me revoltavam. Pior ainda quando ouvia que a pobreza os obrigava a praticar os delitos, pois eu também fui muito pobre e nunca optei pelo “caminho errado”.

Mas bastou passar algum tempo entre becos e vielas das Comunidades da Ilha do Governador que minhas teses foram caindo por terra. A primeira delas foi descobrir que as privações pelas quais eu passei, nunca foram pobreza. Nunca passei um dia inteiro sem alimento. Jamais moramos em casas sem o mínimo de saneamento básico. Não conheci um tempo em que não houvesse sabonete e pasta de dente. Enfim... eu não sabia o que era pobreza!

O aluno faz a escola sim! Mas quem levaria Wallace Klayton para fazer a matrícula? Talvez o pai. Sim, a mãe pode estar entregue à vida, aos vícios... Mas e o pai dessa criança? Foi outra tese que caiu! Pai nas comunidades é artigo de luxo! Avô, então... Nem se fala! A maioria das crianças não convive com os pais que abandonam as mães ainda grávidas, abortando a responsabilidade com os filhos. Outros, quando não estão presos, perdem a vida cedo devido ao envolvimento com a marginalidade. As avós muitas vezes são novas, tem filhos com a idade dos netos, trabalham pra sustentar a casa e não tem condições de assumir mais uma responsabilidade. Como Wallace Klayton pode chegar à escola?

Mas o pai e a mãe ou os avós não são as únicas referencias de Wallace Klayton! Ele tem mais uma opção: aquele “cara” que passa de moto, com tênis que custa quase um salário mínimo, coberto de ouro, uma loura com o cabelo lisinho até a cintura sentada na garupa. A favela toda o reverencia. Ele é demais! Ele ajuda os velhinhos e desempregados com gás de cozinha e remédios. Ele entrega brinquedos no Natal, faz festa no dia das crianças. Como a escola poderia ser interessante se Wallace Klayton nem a conhece? Então ele percebe que sua vida só pode mudar se ele pedir ajuda ao “cara da moto”, assim, quem sabe, ele poderia ter condições de cuidar da mãe.

Wallace Klayton é uma vítima da sociedade e do sistema. Uma sociedade que julga o mérito dos desiguais. Uma sociedade preconceituosa que olha um estereótipo e rotula segundo sua opinião, segundo seu gosto, segundo seu “achismo”. Um sistema que só funciona a favor dos que tiram vantagem dele. Um sistema que não tem interesse pelos marginalizados. Um sistema que prefere uma população ignorante quanto aos seus direitos, mas que cobra sem dó os seus deveres. Um sistema que prefere manter Wallace Klayton e sua família com alguns trocados lá no barraco do que oferecer trabalho e renda, educação, saúde, qualificação.

Nem toda vítima da sociedade e do sistema é um mau caráter, assim como famílias estruturadas não são fábricas de “bons moços”. Conhecer pessoas nos faz saber que são muitos os fatores que formam um caráter e que nós podemos ser agentes transformadores quando oferecemos as opções que eles não tem para poder fazer suas escolhas entre o que é bom para uma vida de dignidade e o que é ruim para sua destruição.

Eu quero dar boas opções para muitos Wallaces Klaytons!