quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O que é Pior? Uva passa no arroz, maçã na maionese ou “é pavê ou pacomê”?


Vai chegando o final de ano e começam as piadas tradicionais. Cada um defendendo o seu gosto, seu paladar. Homens e mulheres querem viver seu dia de “Master Chef” inovando na cozinha para apresentar um prato que deixará todos com água na boca. Há ainda aqueles que não abrem mão da tradição e seguem à risca a receita que vovó ensinou depois de ter aprendido com a bisa.

E então vem a graça da humanidade: a diversidade! Quando as pessoas se juntam as diferenças logo aparecem e cada um se manifesta nas suas preferências.

Além da uva passa no arroz e a maça na maionese tem ainda a disputa do “Panetone x Chocotone” que nos leva a pensar que natal é o um evento puramente gastronômico.
Lembro-me de duas ocasiões em que o Natal na minha família não foi nem de longe um evento gastronômico.

No primeiro eu devia ter seis ou sete anos. Estávamos na igreja na noite do dia 24 quando as crianças ricas perguntaram-me se haveria ceia na minha casa. Até então, eu só conhecia a ceia celebrada pelos cristãos protestantes que consistia em comer um pedacinho de pão e tomar um copinho de suco de uva. Então não entendi por que haveria ceia na minha casa. Discuti o assunto com as crianças até que me explicaram que era a Ceia de Natal. Fui até minha mãe e lhe perguntei se haveria ceia em nossa casa e ela prontamente disse que sim. Voltei cheia de orgulho às outras crianças e respondi que sim, haveria ceia em minha casa. Foi quando experimentei a primeira pizza quatro queijos na minha vida! Mamãe fez uma massa, espalhou um molho de tomate sobre ela e a cobriu com quatro fatias de muçarela. Enquanto assava, colocou a melhor toalha sobre a mesa, e preparou os cinco pratos, cinco copos, talheres e quando a pizza ficou pronta e ela chamou os quatro filhos, abriu uma Coca-Cola de 1 litro, garrafa de vidro e orou conosco agradecendo a Deus pelo nascimento do Salvador e pela nossa ceia de Natal. Fui dormir feliz sabendo que eu era igual às crianças ricas da igreja.

Na segunda ocasião, morávamos ainda em Três Pontas, cidade do Sul de Minas Gerais, no Bairro Ouro Verde, acho que era o melhor da época. Nossa Casa era uma das duas mais simples daquele quarteirão, mas nossos vizinhos que tinham uma situação bem melhor que a nossa eram ótimos, hospitaleiros, generosos e éramos sempre bem vindos em suas casas. Esse 24 de dezembro estava bem quente e fomos nadar na casada Dona Vitoria. Quando meu irmão passou pela cozinha se deparou com a cozinheira preparando a ceia de natal e ele, curioso, perguntou o que era aquilo, ao que a moça lhe respondeu – É Peru! Nunca viu peru? Hoje é natal dia de comer peru!

A tarde chegou ao fim e fomos para nossa casa. Meu irmão foi logo contar para a mamãe sobre a conversa com Ana, a cozinheira: Mãe, a Ana disse que hoje é natal e que é dia de comer peru. Nós vamos ter peru? Minha mãe respondeu que sim, teríamos peru.

Chegou a tão esperada hora da ceia de natal e mamãe coloca sobre a mesa arrumadinha a travessa com o nosso peru. Meu irmão, confuso, indaga: Ué, mas o peru que eu vi na casa da Dona Vitória era muito grande... Por que o nosso é pequeno? Mamãe sem titubear responde: porque quando você viu estava cru, mas depois que assa ele fica assim. E foi assim que comemos aquele frango com sabor de peru de natal!

Chego à seguinte conclusão: pior que uva passa no arroz ou maçã na maionese, ou do que a piadinha do “pavê ou pacomê” ou da guerra panetone x chocotone é passar uma vida sem amar, ser amado, sem valorizar os momentos simples em família e amigos. A Vida é um presente! Família e amigos são fundamentais. E mesmo sabendo que Jesus não nasceu à meia noite do dia 24 para 25 de dezembro, que essa data é comercial, que não existe um mandamento para comemorar o Natal, vamos aproveitar o feriado e curtir as pessoas seja com um belo banquete ou com uma pizza “quatro queijos” ou com frango sabor peru!