Vai
chegando o final de ano e começam as piadas tradicionais. Cada um defendendo o
seu gosto, seu paladar. Homens e mulheres querem viver seu dia de “Master Chef”
inovando na cozinha para apresentar um prato que deixará todos com água na
boca. Há ainda aqueles que não abrem mão da tradição e seguem à risca a receita que vovó ensinou depois de ter aprendido com a bisa.
E
então vem a graça da humanidade: a diversidade! Quando as pessoas se juntam as
diferenças logo aparecem e cada um se manifesta nas suas preferências.
Além
da uva passa no arroz e a maça na maionese tem ainda a disputa do “Panetone x
Chocotone” que nos leva a pensar que natal é o um evento puramente
gastronômico.
Lembro-me
de duas ocasiões em que o Natal na minha família não foi nem de longe um evento
gastronômico.
No
primeiro eu devia ter seis ou sete anos. Estávamos na igreja na noite do dia 24
quando as crianças ricas perguntaram-me se haveria ceia na minha casa. Até
então, eu só conhecia a ceia celebrada pelos cristãos protestantes que
consistia em comer um pedacinho de pão e tomar um copinho de suco de uva. Então
não entendi por que haveria ceia na minha casa. Discuti o assunto com as
crianças até que me explicaram que era a Ceia de Natal. Fui até minha mãe e lhe
perguntei se haveria ceia em nossa casa e ela prontamente disse que sim. Voltei
cheia de orgulho às outras crianças e respondi que sim, haveria ceia em minha
casa. Foi quando experimentei a primeira pizza quatro queijos na minha vida!
Mamãe fez uma massa, espalhou um molho de tomate sobre ela e a cobriu com
quatro fatias de muçarela. Enquanto assava, colocou a melhor toalha sobre a
mesa, e preparou os cinco pratos, cinco copos, talheres e quando a pizza ficou
pronta e ela chamou os quatro filhos, abriu uma Coca-Cola de 1 litro, garrafa
de vidro e orou conosco agradecendo a Deus pelo nascimento do Salvador e pela
nossa ceia de Natal. Fui dormir feliz sabendo que eu era igual às crianças
ricas da igreja.
Na
segunda ocasião, morávamos ainda em Três Pontas, cidade do Sul de Minas Gerais,
no Bairro Ouro Verde, acho que era o melhor da época. Nossa Casa era uma das
duas mais simples daquele quarteirão, mas nossos vizinhos que tinham uma
situação bem melhor que a nossa eram ótimos, hospitaleiros, generosos e éramos
sempre bem vindos em suas casas. Esse 24 de dezembro estava bem quente e fomos
nadar na casada Dona Vitoria. Quando meu irmão passou pela cozinha se deparou
com a cozinheira preparando a ceia de natal e ele, curioso, perguntou o que era
aquilo, ao que a moça lhe respondeu – É Peru! Nunca viu peru? Hoje é natal dia
de comer peru!
A
tarde chegou ao fim e fomos para nossa casa. Meu irmão foi logo contar para a
mamãe sobre a conversa com Ana, a cozinheira: Mãe, a Ana disse que hoje é natal
e que é dia de comer peru. Nós vamos ter peru? Minha mãe respondeu que sim,
teríamos peru.
Chegou
a tão esperada hora da ceia de natal e mamãe coloca sobre a mesa arrumadinha a travessa
com o nosso peru. Meu irmão, confuso, indaga: Ué, mas o peru que eu vi na casa
da Dona Vitória era muito grande... Por que o nosso é pequeno? Mamãe sem
titubear responde: porque quando você viu estava cru, mas depois que assa ele
fica assim. E foi assim que comemos aquele frango com sabor de peru de natal!
Chego
à seguinte conclusão: pior que uva passa no arroz ou maçã na maionese, ou do
que a piadinha do “pavê ou pacomê” ou da guerra panetone x chocotone é passar
uma vida sem amar, ser amado, sem valorizar os momentos simples em família e
amigos. A Vida é um presente! Família e amigos são fundamentais. E mesmo
sabendo que Jesus não nasceu à meia noite do dia 24 para 25 de dezembro, que
essa data é comercial, que não existe um mandamento para comemorar o Natal,
vamos aproveitar o feriado e curtir as pessoas seja com um belo banquete ou com
uma pizza “quatro queijos” ou com frango sabor peru!
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